Como blog estaremos aqui para escrever as nossas opiniões, observações e para que quem nos visite deixe também as suas. Tentaremos, dentro das possibilidades, manter este local actualizado com o que vai acontecendo à nossa volta em Macau e um pouco em todo o lado...

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

A Saúde e o Português

ANTES de mais, Kung Hei Fat Choi para todos os leitores d’O CLARIM e para todos os meus amigos. Espero que o Dragão nos traga muita saúde e prosperidade e que seja um ano de mais avanços do que recuos, em todos os campos das nossas vidas.

Nestes últimos dias fiquei a saber que a questão da língua portuguesa em Macau divide mais os portugueses que os chineses. Recentemente coloquei numa página da Internet um comentário relacionado com o facto de me ter dirigido às Urgências do Centro Hospitalar Conde de São Januário e ter sido obrigado a deixar o local sem ser atendido por um médico que falasse Português. As reacções ao comentário foram mais do que surpreendentes e demonstram que, se temos de culpar alguém por não se usar mais o Português em Macau, a nós temos de apontar o dedo.

De salientar que não referi que queria ser atendido por um medico português, pelo que a questão da nacionalidade estava metida de parte. Apenas exigi, – como está previsto nas leis que nos regulam, – que o serviço público me fosse prestado na língua oficial portuguesa, visto não dominar a outra. Recusei-me apenas a fazer uso do Inglês na consulta por temer que algo se perdesse no meio das traduções, como muitas vezes acontece. Nem o meu Inglês é bom, nem o da maioria dos clínicos chineses do hospital atinge um nível que nos deixe confortáveis. Não seria a primeira vez que iria sair do hospital com mais uma receita de «paracetamol».

A solução que me encontraram, depois de ter sido muito mal recebido por dois clínicos (um médico e uma médica, suponho), foi a de abandonar o local porque, segundo o médico que estava responsável pelas Urgências nesse dia, não me conseguiria atender em Português. Se quisesse ser em Inglês, muito bem; caso contrário, teria de procurar consulta noutro local ou noutro dia!

Isto, para registo dos Serviços de Saúde, caso queira aprofundar a queixa, passou-se no dia 2 de Janeiro, sendo o meu registo das 10:44 da manhã. Abandonei o local já depois do meio-dia, sem ser atendido. O problema teve de ser resolvido na privada, para minha surpresa. Quanto à queixa, estou à disposição do SSM para mais esclarecimentos, caso entendam contactar-me. É uma vergonha que tratem os utentes desta forma.

A verdade é que em Macau o Governo de Portugal, até 1999, nunca conseguiu impor a língua portuguesa como obrigatória nas escolas. E, mesmo nas públicas onde era ensinada, a sua qualidade foi sempre incipiente, vendo-se agora os resultados desse ensino no seio da comunidade local, ao contrário de Hong Kong, onde Londres nunca deu o braço a torcer e obrigou todos (quase) a aprender forçosamente o Inglês. Mesmo com essa política, a penetração do Inglês em Hong Kong ficou muito aquém do que Inglaterra esperava. No entanto, situa-se em níveis muito aceitáveis, especialmente nos serviços públicos.

Aqui em Macau, passados doze anos da transferência da soberania, o ensino do Português parece agora ter mais força do que durante a administração portuguesa. No entanto, os resultados deste esforço de Pequim (através de Macau) para ensinar mais pessoas a dominar a língua portuguesa, só irá dar resultados daqui a uma ou duas gerações. Até isso ser visível, o Português vai sendo, cada vez mais, deixado para segundo plano, relativamente ao Inglês. Mesmo nos serviços públicos, onde, por força do acordo assinado por Pequim e Lisboa, seria obrigatório a prestação dos serviços nas duas línguas. Acontece na grande maioria das repartições e eu próprio posso testemunhar isso diariamente.

Nota-se um esforço para que o Português não perca terreno, especialmente depois do Governo Central ter puxado as orelhas ao Executivo local. No entanto, em alguns locais, nomeadamente nos Serviços de Urgência do hospital público, tal não acontece e piora de dia para dia, sem que ninguém se incomode.

O caso dos serviços médicos parece-me mais sério porque, no caso de se tratar de um problema complicado (por exemplo uma apendicite aguda) e o paciente não ser capaz de explicar em Chinês ou Inglês (ou caso o clínico não perceba, o que acontece amiúde), o diagnóstico poderá ter consequências desastrosas. Não seria o primeiro, no caso das apendicites agudas, a ser enviado para casa com «paracetamol» e um diagnóstico de gases! Felizmente, ainda nada de grave sucedeu, visto as pessoas afectadas recorrerem, em último recurso, aos serviços privados.

Se bem que o caso que se passou comigo seja grave, o que mais me surpreendeu foram mesmo as reacções à minha indignação. Muitos foram os que consideraram que estaria a extrapolar e a ser reaccionário, visto dominar Inglês e não haver necessidade dos médicos falarem Português. Se assim for, para que precisamos do Português como língua oficial? Apenas para constar como sinal de diferença e aparecer na fotografia de alguns turistas?

O Português é língua oficial, a par com o Chinês. Não tenhamos ilusões em pedir que todos falem Português, porque nunca irá acontecer, assim como nunca iremos ter todos os portugueses a falar Chinês. No entanto, em tudo o que se relaciona com os serviços dos Governo, deve e tem de haver capacidade de fornecer serviços a quem os queira em Chinês ou Português. No caso do hospital, será impensável que todos os clínicos falem Português e Chinês (tanto os chineses como os portugueses), mas não deve servir de impedimento para que haja uma equipa abrangente de falantes das duas línguas oficiais. Médicos a falar Português há em, pelo menos, oito países. Não têm de ser forçosamente de Portugal.

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

O CLARIM - Semanário Católico de Macau

Pobres dos taxistas

MUITOS de nós já passamos pela «aventura» de apanhar um táxi em Macau. No entanto, apesar de tal ser cada vez mais difícil, torna-se ainda mais incrível na época dos tufões. As queixas de abusos nas tarifas são mais do que muitas e a DSAT desdobra-se em desculpas, reafirmando que tudo faz para combater o problema. Confesso não acreditar no que dizem e considero que mais valia estarem calados, do que dizerem sempre o mesmo. Desculpem ser tão directo!

A verdade é que os taxistas de Macau, salvo raras excepções, revelam falta de educação, não sabem conduzir e pensam-se donos e senhores da estrada e do que transportam dentro dos veículos. Fazem o que lhes apetece, são pouco prestáveis e conhecem menos a cidade do que muitos turistas; isto, para além de se fazerem desentendidos, quando reclamamos.

Na época de tufões, não cansados de «espremer» os clientes durante os restantes dias do ano, aproveitam para cobrar 600 patacas para transportar alguém de Macau para a Taipa. Perante o confronto com o cliente que lhe diga que é ilegal, dizem que têm que cobrar mais, porque o seguro é muito caro para cobrir os riscos em caso de acidente em dia de tufão. E, se não querem pagar, rua!

A verdade é que, de acordo com as seguradoras de Macau, não existe um só táxi que tenha seguro que cubra acidentes em dias de tufão! Aliás, o tal seguro é mesmo caro, por isso ninguém o faz. Portanto, porque razão cobram a tarifa elevada, ilegal, se não serve de nada?

Se realmente houver um acidente e o passageiro ficar ferido, de nada vale o seguro do táxi, porque, legalmente, não estando coberto para circulação em dias de tufão, o taxista não deveria estar a transportar passageiros nem andar na estrada… Portanto, táxis a circular em dias de tufão sem o devido seguro, circulam ilegalmente.

A verdade é que isto regista-se sempre que passam tufões por Macau. Ano após ano, as queixas repetem-se e a DSAT dá sempre a mesma desculpa. As queixas das pessoas lesadas de nada valem, porque raramente são levadas até à última instância. Aliás, quando ocorrem estes casos, como pode o passageiro apresentar queixa? Será a palavra dele contra a do condutor, porque não será possível encontrar nenhum fiscal da DSAT. Ou será que a DSAT irá passar a colocar um fiscal (ou uma câmara de vigilância) em cada táxi?

Ou iremos passar a ter um sistema semelhante ao que vi recentemente na Coreia do Sul, onde todos os táxis são obrigados a estar equipados com GPS (sempre ligado) e com sistema wifi (internet sem fios) que permite à polícia e à central de táxis saber onde se encontra, a velocidade, a tarifa cobrada, etc. Além disso, são obrigados a ter instalado um sistema de CCTV (câmara de vigilância) ligada ao sistema de internet e que pode ser acedida pelas autoridades, em caso de qualquer incidente ou reclamação de um passageiro para dirimir o conflito. De salientar que este sistema guarda a imagem vídeo, o som, e combina-os com os dados do GPS, por um período de um ano.

Em Macau, todos sabemos que os seguros são caros, pois só assim as seguradoras podem fazer face às indemnizações que têm de pagar aos taxistas que não sabem conduzir e que provocam acidentes a toda a hora. Se a prevalência dos acidentes fosse menor no sector, certamente que os seguros seriam mais baratos. É o que acontece com todo o tipo de seguro: se não houver nenhuma participação no prazo de um ano, o cliente vê o prémio diminuído no ano seguinte.

A DSAT, na última explicação a alguns deputados sobre o assunto, disse que manteve reuniões com o sector dos táxis e das seguradoras, mas que não chegou a nenhum consenso, visto as seguradoras não poderem oferecer preços mais baixos. Por seu lado, os taxistas insistem, dizendo que não podem pagar mais. No meio ficam os passageiros, que acabam por pagar pequenas fortunas para usufruírem de um serviço de péssima qualidade.

Seria muito mais simples que a DSAT clarificasse as mentes dos taxistas, dizendo-lhes que, em dias de tufão, se querem trabalhar, devem fazer um seguro especial e pagar o preço pedido. Caso contrário, que mantenham o veículo na garagem, até o tufão passar.

Afinal, os táxis para circular têm de estar segurados. Se têm de estar para dias normais, também o devem estar para dias especiais. E, caso os seus proprietários queiram trabalhar, têm de cumprir a lei ou assumir as responsabilidades.

A lei tem de ser igual para todos os cidadãos. Nas nossas casas somos obrigados a ter seguro contra-incêndio e seguro de saúde para as empregadas, etc. Em dias de tufão, caso os seguros que temos não cubram essas eventualidades, somos obrigados a assumir as responsabilidades.

Se da minha varanda cair um vaso que cause danos, sou obrigado a pagar pelo prejuízo, caso o meu seguro não o cubra. Porque razão os senhores taxistas querem impor ao passageiro o prémio do seguro em tempo de tufão? É já altura de deixarmos as hipocrisias de lado e cada um assumir as suas responsabilidades. Os taxistas, como todos os cidadãos, têm responsabilidades sociais e, como tal, devem assumi-las.

Se o problema é o seguro, o Governo tem de estabelecer tarifas especiais para dias de sinal número 8. Não será muito difícil resolver o problema. Um aumento de 100% seria preferível à roubalheira descarada que os taxistas fazem. E se as tarifas forem instituídas, só as paga quem quer. A única certeza que temos no meio de tudo isto é que, a partir da próxima Páscoa, os táxis vão aumentar a bandeirada e o preço por quilómetro!

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